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Motivação & Inspiração

Rothbard escreve a Ayn Rand sobre a ‘Revolta de Atlas’

Murray Rothbard escreve para Ayn Rand sobre seu livro A revolta de Atlas.

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que escrevi exatamente “o que queria dizer”; não há exagero ou hipérbole nesta carta. Qualquer coisa menos que plena honestidade seria indigno de A Revolta de Atlas.

Terminei há pouco de ler o seu romance. Começo dizendo que todos nós do Círculo Bastiat estamos convencidos, e nos convencemos assim que iniciamos a leitura, de que A Revolta de Atlas é o maior romance já escrito. Essa é a nossa premissa inicial, e nela se baseiam as nossas discussões acerca do livro. Mas isso é apenas o começo. Essa afirmação simples, por si mesma, significa pouco para mim: sempre guardei certo desprezo pela forma romanesca, considerando o romance, na melhor das hipóteses, uma solução “água-com-açúcar” na divulgação sistemática de ideias entre as massas, que costumam ter dificuldade para levá-las em consideração. Um mês atrás, caso eu tivesse dito que um livro era “o maior romance já escrito”, não teria sido um elogio grandioso.

Isto é, em poucas palavras, o que penso de A Revolta de Atlas: ela me fez não mais desprezar o romance. Sempre ouvi meus amigos literatos falarem sobre as “verdades” apresentadas pelos romances, sem, contudo, compreender o termo. Agora compreendo, mas apenas porque a senhora conduziu o formato romanesco a uma dimensão nova e mais elevada. Pela primeira vez, consolidou-se uma grande unidade entre princípio e sujeito, representando as pessoas e suas ações em perfeito acordo com seus princípios – e as consequências desses. Isso por si só é uma grande realização. A partir da unidade entre princípio e sujeito, emerge como corolário a unidade entre razão e emoção: e o leitor, ao compreender seu sistema filosófico por meio tanto do discurso como pelas ações das personagens, é acometido pela grandiosa emoção de uma percepção imediata e racional. Enquanto lia seu livro, a alegria que sentia era mediada pelo pesar por todas aquelas gerações de leitores de romances, pessoas como minha mãe, que em sua juventude leram Dostoiévsky e Tolstoy, e que avidamente buscaram por verdades que nunca de fato encontraram, lamentei por essas pessoas, que não puderam ler A Revolta de Atlas. Nele, penso eu, estavam as verdades que eles procuravam. Nele, em A Revolta de Atlas, encontra-se a perfeição da forma romanesca. É agora uma forma que honro e admiro.

Mas o fato verdadeiramente surpreendente sobre seu romance é o edifício vasto e completamente integrado de pensamento e de ação: a assombrosa infinidade de conexões racionais, grandes e pequenas, que o permeiam. Joey diz que costumava pensar como um romance poderia levar dez anos para ser escrito; agora ela se pergunta como você pode escrevê-lo em apenas dez anos. Cada página, quase que cada palavra, tem seu significado e sua função. Tenho certeza que atingi apenas a superfície de todas as interconexões, boa parte da minha conversa consiste em dizer: e o que dizer a respeito da página tal e tal: vê como se encaixa? Lembro-me agora de um trecho, acredito que de um dos primeiros discursos de Francisco, em que os seguintes substantivos apareceram: razão, justiça, liberdade, produção, realização. Para alguns, isso parece [pode parecer] ser um conjunto aleatório de substantivos, mas vi imediatamente que um é seguido do outro a partir de uma progressão lógica estrita, que um leva ao outro. Este é apenas um exemplo de uma infinidade de preciosidades contidas em A Revolta de Atlas.

Encontrar alguém que esculpiu, de maneira completamente integrada, uma ética racional, uma epistemologia racional, uma psicologia racional e uma política racional, conectando-as entre si, e retratando-as através de personagens em ação, é um evento duplamente surpreendente. E me espanta que isso surpreenda até mesmo aqueles que já estavam familiarizados com as linhas gerais do seu sistema. O que ele fará com a pessoa que perpasse por ele mais de uma vez eu não posso imaginar. A senhora chegou não apenas a unidade entre princípio e sujeito, entre razão e paixão, mas também àquela entre mente e corpo, matéria e espírito, sexo e política… em suma, para usar a velha frase marxista, “a unidade entre teoria e prática”.

Este é o tipo de livro em que alguém pode encontrar uma frase ou conceito e exclamar: oh, nenhum esquerdista poderia ter dito tal bobagem; e então, em outro momento, descobrir que a mesma bobagem estava sendo espalhada ao seu redor. É quase impossível, após ler A Revolta de Atlas, levar os argumentos esquerdistas a sério. Confesso que, à primeira vista, senti falta de um grande vilão, como Ellsworth Toohey, um Dr. Fu Manchu do mal, mas então me dei conta de que este é um dos pontos-chave do livro. Daí quando tentei contar a alguns esquerdistas conhecidos algo acerca do seu sistema, tudo que eles puderam fazer foi torcer seus lábios feios e balbuciar que se tratava de “um sistema paranoicamente fechado”. Estes são os “intelectuais” da nossa época!

Agora chego à parte dolorosa desta carta. A partir do meu temor e maravilhamento diante da glória e magnitude de sua realização, sabendo desde antes que teria de lhe escrever e expressar por completo o quanto o mundo e eu lhe devemos, também estou ciente que lhe devo uma explicação: um explicação do porquê tenho evitado vê-la pessoalmente desde os muitos anos que nos conhecemos. Quero que saiba que a culpa é minha, e a razão é um defeito na minha própria psique e não um que eu atribua a você. O fato é que, das muitas vezes que a vi pessoalmente, particularmente quando iniciamos uma discussão mais alongada, vi-me deprimido nos dias subsequentes. Por que eu ficava tão deprimido não é de meu conhecimento. Por toda minha vida tenho sido afligido por um “estado de fobia” (do qual meu medo de viagens é a manifestação mais evidente), i.e., um estado de emoções assustadoras que nunca pude controlar e tampouco explicar racionalmente. Descobri que a única maneira que posso combater essa emoção dolorosa é fugindo das situações que parecem evocá-la – mesmo sabendo que se trata de um subterfúgio, mas sem conhecer melhor forma de escapar. Foi o que aconteceu no caso de vê-la pessoalmente. Nunca me senti deprimido no mesmo grau que me sentia ao vê-la, então conclui que a melhor forma de evitar essa reação era não indo vê-la. Naturalmente que também me senti envergonhado em dizer qualquer coisa a respeito para a senhora. Curiosamente, não sinto vergonha agora; é como se escrever para a autora de A Revolta de Atlas, aquele livro que transmite o impacto imediato de sentir orgulho e alegria por ser humano, torne impossível sentir vergonha por dizer a verdade.

Na minha melhor tentativa de descobrir por que eu ficava tão deprimido, posso pensar em apenas uma ou em ambas as explicações a seguir: (1) meu cérebro ficava completamente exausto sob a intensa tensão de se manter na presença de uma mente que, sem qualquer hesitação, digo ser a mais brilhante de século XX; ou (2) porque eu senti que se continuasse a vê-la, minha personalidade e independência seria sobrecarregada pelo tremendo poder da sua própria. Caso a última explicação seja a correta, o defeito é, é claro, mais uma vez meu e não seu. De qualquer maneira, vim a considerá-la como o sol, um ser de enorme poder emanando uma grande luz, mas se essa pessoa se aproximasse demais, seria suscetível a se queimar.

Ainda assim, quero que a senhora saiba que, mesmo sem vê-la, teve uma enorme influência sobre mim – mesmo antes do romance vir à tona. Pela primeira vez que me interessei por ideias, meu passo inicial era uma paixão grandiosa pela liberdade humana e um ódio pela violência agressiva do homem contra ele próprio. Sempre gostei de economia e estive inclinado à teoria, mas descobri nos cursos da graduação em economia que o que as teorias ofereciam estava mortalmente errado, embora não pudesse dizer o porquê. Ação Humana de Mises foi a próxima grande influência sobre mim, porque lá encontrei um grande sistema racional de economia, logicamente interconectado, seguindo, como na filosofia aristotélica, a partir de um axioma básico e certo: a existência de seres humanos. Quando a conheci pela primeira vez, muitos anos atrás, eu era um seguidor de Mises, porém estava infeliz com sua antipatia pelos direitos naturais, que “senti” ser verdadeira, mas que não pude demonstrar. A senhora me introduziu a todo o terreno dos direitos naturais e à filosofia do direito natural, cuja qual eu não sabia que existia e que, mês a mês, estudando por conta própria, como preferi, aprendi e estudei a gloriosa tradição dos direitos naturais. Também conheci, a partir da senhora, a epistemologia aristotélica, então a estudei e vim a adotá-la seriamente. Tenho para com a senhora um grande débito intelectual, de muitos anos; o menor deles é introduzir-me numa tradição da qual permaneci ignorante por quatro anos de faculdade e três de pós-graduação.

E agora descubro, maravilhado, admirado, com temor e alegria, que me tornei uma pessoa melhor por ler A Revolta de Atlas. Ainda é incrível para mim que o caráter de uma pessoa possa melhorar a partir da leitura de um trabalho artístico, porém eis um. Procurei e encontrei muitos amigos que leram e sentiram-se da mesma maneira. Acredito que sua leitura trará ao leitor atento, como trouxe a mim, ao menos um pouquinho mais de convicção no orgulho de ser humano, um pouco mais de alegria diante das alternativas ilimitadas de realizações possíveis que se abrem diante dele, do sentimento que a dor não importa, da felicidade de estar vivo na Terra e até do sentimento de que a razão e a justiça prevalecerão no final. Ele andará um pouco mais ereto, com a cabeça um pouco mais elevada e será muito mais honesto (uma das maiores proezas do livro é sua demonstração racional e emocional que a honestidade é uma virtude profundamente necessária e egoísta e não apenas um luxo para otários. Magnífico!).

O principal defeito neste livro – e falo seriamente – é a falta de um índice. Minha principal emoção ao ler o livro foi belamente resumida em uma emoção que o Dr. Stadler sentiu quando, pela primeira vez, deparou com o manuscrito de Galt: dividido entre a ansiedade de seguir em frente e a ansiedade de pensar e digerir as muitas ramificações do que li. Com um romance isto é ainda mais problemático, já que a atração de seguir adiante na leitura é mais irresistível. Este livro clama por um índice detalhado e completo, para que quando alguém queira se referir rapidamente a passagens sobre certo conteúdo ou sobre um discurso ou frase específica, possa encontrá-lo sem demora. Sei que nenhum romance teve um índice até agora, mas nenhum nunca precisou de um até agora e este precisa. Talvez a senhora seja persuadida a publicar uma edição “escolar”, complementada por um índice.

Por favor, deixe-me saber se há qualquer coisa que eu possa fazer para promover a venda do livro. Farei qualquer coisa que puder: desde escrever cartas ao editor até colar adesivos nas esquinas das ruas. Estou anexando uma cópia desta carta ao New Leader, como comentário à vergonhosa e repugnante coluna do “ex”-comunista Granville Hicks sobre seu livro. (Quando disse que seu livro melhorará o leitor, não me referi aos esquerdistas convictos: arrepio-me ao pensar no que o livro fará às suas psiques se, de fato, o lerem). Entendo e espero que John Chamberlain resenhe seu livro para o Sunday Herald-Tribune – e, confidencialmente, há a possibilidade crescente que ele o resenhe para o National Review, caso Whittaker Chambers não envie outro de última hora.

Apenas duas vezes na minha vida me senti honrado e feliz por ser jovem e estar vivo na data específica da publicação de um livro: primeiro com Ação Humana em 1949 e agora com A Revolta de Atlas. Quando, no passado, ouvi seus discípulos referirem-se à senhora em termos grandiloquentes – como um dos maiores gênios que já viveu, por dar-lhes um “universo circundante” – confesso que tendi a rejeitar essa atmosfera: certamente isso era uma profusão de sentimentos de um culto místico. Mas agora, após ter lido A Revolta de Atlas, descobri que estava errado. Não se tratava de um exagero, mas de uma percepção da verdade. A senhora é um dos maiores gênios de todas as épocas e me sinto orgulhoso de sermos amigos. E A Revolta de Atlas não é apenas o maior romance já escrito, mas um dos maiores livros já escritos, de ficção e não ficção. Na verdade, é uma das maiores realizações que a mente humana já produziu. E é isso que quero dizer. Se Zaratustra retornasse à Terra e me perguntasse – enquanto um representante da raça humana – aquela inesquecível questão: “o que tens feito para superar o homem?”, apontarei para A Revolta de Atlas.

Grato, Murray”

Tradução de Matheus Pacini em Objetivismo. Publicado originalmente em Journal of Libertarian Studies

 

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