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Por que o Sudeste Asiático está coberto de fumaça?


Uma névoa seca vem cobrindo o sudeste da Ásia, periodicamente, há 20 anos. Nessa reportagem, Mike Ives revela que, apesar da crescente preocupação com a saúde pública, o problema continua tão turvo quando a própria fumaça.

Aos 13 anos, Tan Yi Han não conseguia ver o fim do pátio da sua escola. O ano era 1998; o lugar, Singapura, a rica cidade-estado conhecida por suas ruas organizadas e horizonte limpo e verde. Mas durante a maior parte do ano letivo, o céu era tomado por nuvens de fumaça. A maior dessas ondas de poluição, que começou em 1997 e durou alguns meses, aumentou em 30% as visitas hospitalares. Essa temporada seria, no futuro, lembrada como um dos piores “episódios de névoa seca”.

Desde então, o Sudeste Asiático sofre com essa névoa quase que anualmente. Nos anos seguintes, Tan não pensou muito sobre esses episódios. Mas em algum ponto da sua idade adulta, ele se viu cheio de dúvidas: de onde vinha essa névoa? E por que ela sempre voltava?

A poluição do ar mata cerca de sete milhões de pessoas a cada ano, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), contabilizando uma entre cada oito mortes mundiais em 2012. As maiores causas de morte são infarto e doenças coronárias, seguidas pela doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), câncer de pulmão e infecções respiratórias em crianças.

A poluição afeta principalmente a região da Ásia-Pacífico, que tem uma população de mais de 4.2 bilhões e uma alta densidade populacional. A China e a Índia possuem, juntas, uma população de cerca de 2,7 bilhões — e são tanto culpadas quanto vítimas da poluição do ar.

Em 2010, 40% das mortes prematuras causadas pela poluição do ar aconteceram na China, o maior emissor de dióxido de carbono do mundo, de acordo com um estudo publicado na revista científica Lancet. A Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Hong Kong anunciou mais de 3.000 mortes prematuras na cidade em 2013, e a situação é muito pior em várias cidades continentais da China. Uma pesquisa do Centro de Pesquisa US Pew revelou que, em 2013, 47% dos cidadãos chineses consideravam a poluição do ar um problema “muito grave” (comparado a apenas 31% em 2008). Hoje, a poluição é o foco de vários grupos ambientalistas chineses, assim como uma grande fonte de preocupação para o governo do país.

A mesma inquietude cresce na Índia, onde a poluição do ar é a a quinta maior causa de mortes. Entre 2000 e 2010, o número de mortes prematuras ligadas à poluição do ar no país aumentou seis vezes, chegando a 620.000, de acordo com o Centro de Ciência e Meio-Ambiente, um grupo de pesquisa de utilidade pública de Nova Deli. Em maio de 2014, a OMS afirmou que Nova Deli tem a pior qualidade de ar entre as 1.600 cidades avaliadas, e que a crescente poluição havia aumentado o risco de derrames, câncer e doenças coronárias. Outro estudo de 2014 ligou a queda significativa da produção de trigo e arroz aos crescentes níveis de dois poluentes — o carbono negro gerado pelos fogões tradicionais e o ozônio emitido por veículos, conglomerados industriais e solventes químicos — tudo isso entre 1980 e 2010.

Tanto na China quanto na Índia, a poluição do ar está ligada ao intenso êxodo urbano das últimas décadas. Esse fluxo aumentou as emissões originadas em veículos e fábricas, especialmente em usinas de energia movidas à carvão; outro fator é a classe média emergente, fascinada por uma série de bens de consumo que são comuns na Europa e nos Estados Unidos.

O Sudeste Asiático enfrentou problemas similares nas últimas décadas, época em que sua economia e população cresceram desenfreadamente. De acordo com a OMS, quase um milhão das 3,7 milhões de pessoas que morreram devido à complicações ligadas à poluição do ar em 2012 viviam no Sudeste Asiático. Mas além das chaminés e escapamentos, a região ainda enfrenta outro problema: a fumaça produzida na Indonésia, cortesia de uma indústria de óleo de palma avaliada em US$50 bilhões.

No verão de 2013, Tan Yi Han sobrevoou o Estreito de Malaca até Pekanbaru, capital da província de Riau, a maior região produtora de palma da Indonésia. Tan, que na época era um consultor financeiro de 28 anos, estava trabalhando como voluntário para o Centro do Meio-Ambiente Global, um grupo malaio que se esforça para prevenir e diminuir a temida névoa. Ele viajou até o coração da Indonésia logo após uma onda de poluição atingir a parte peninsular da Malásia.

Durante um passeio por Riau, Tan viu infinitos hectares de campos queimados. As queimadas transformaram a turfa pantanosa, a vegetação natural da área, em campos devastados, com um solo semelhante a carvão. Os produtores usam o fogo para limpar terrenos que serão cultivados, em sua maioria, com plantações de palma. Mas em algumas vilas, o fogo chegou a destruir plantações que pertenciam à multinacionais ou produtores locais.

Tan teve um encontro inesquecível na vila de Rantau Bais. Um casal o recebeu com chá e tira-gostos, e em seguida perguntaram, timidamente, se ele teria alguma comida para compartilhar. A filha deles havia desenvolvido um problema respiratório em decorrência da fumaça. A conta médica, associada ao fogo que destruiu sua plantação de palmas, deixou a família faminta e sem dinheiro.

Até aquele momento, Tan pensava que essas queimadas eram apenas “incêndios florestais”, como elas são constantemente chamadas pela mídia. Mas lá estava um lembrete visceral de que as queimadas afetavam a terra e as pessoas que dela viviam. “Aquilo me tocou”, disse Tan. “Eu prometi a mim mesmo que eu faria o possível para impedir que eles sofressem com essas queimadas de novo.”

Ele percebeu que aquele problema exigia atenção pública — e, quando o momento chegasse, alguma ação condizente. “Eu preciso trazer mais pessoas para a causa”, ele pensou, “e criar um movimento.”

Toda fumaça parece igual, mas cada emissão poluente é única. A chaminé de uma fábrica de Beijing emite uma mistura de substâncias químicas diferente da fumaça emitida pelo tubo de escape de um automóvel de Nova Deli. A quantidade de poluição de uma determinada cidade depende do controle cuidadoso de suas emissões, e a facilidade com que ela é dispersada.

As emissões de veículos e fábricas são estudadas há décadas nos países ricos, mas a névoa seca, e seu subsequente impacto na saúde humana, ainda não recebe a mesma atenção. “Poucas pessoas estudam esse fenômeno, mesmo ele sendo tão importante”, disse Mikinori Kuwata, um químico atmosférico da Universidade de Tecnologia de Nanyang, na Singapura.

Diferente dos gases emitidos por fábricas e veículos, a fumaça das queimadas não é filtrada por filtros, catalisadores ou outros equipamentos de controle de poluição. A composição da fumaça também varia de acordo com o tipo de material queimado. A turfa, por exemplo, costuma queimar mais lentamente do que vegetações mais secas — assim como um pedaço úmido de lenha demora mais para queimar dentro de uma fogueira. De acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA, a turfa queima em baixas temperaturas e produz uma fumaça mais nociva, e em maiores quantidades, do que um incêndio florestal.

As emissões de uma queimada dependem da composição da turfa, da temperatura do fogo e do efeito do seu efeito no solo. Mas esses detalhes ainda não são disponibilizados pela Indonésia, cuja turfa cobre uma área do tamanho do Reino Unido. Por causa disso, disse Kuwata, “nós não temos um levantamento confiável” sobre as queimadas no país. Kuwata queima amostras da turfa indonésia em seu laboratório, na Singapura, para estudar suas propriedades químicas; no entanto, seu estudo é limitado, pois ele nunca tem certeza se suas experiências retratam a realidade.

ebdf bsZcGov

Via RSS de Gizmodo Brasil

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