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A metodologia por trás da criação dos efeitos especiais de “O Espetacular Homem-Aranha 2”


CULVER CITY, CA – Dois dias antes da finalização dos efeitos especiais para “O Espetacular Homem-Aranha 2 – A Ameaça de Eletro”, a Sony convidou um pequeno grupo de jornalistas para conhecer os meandros da produção e entender a metodologia por trás da criação dos efeitos especiais do novo filme de Marc Webb. O B9 foi o único veículo brasileiro no evento e o que vimos foi tão maravilhoso quanto assustador.

Há uma mentalidade interessante liderando a construção de cenas em CGI e os demais efeitos especiais na Sony: sempre ter um pé na realidade. Esse é o código de honra dos animadores, desenhistas e finalizadores dos efeitos liderados por Jereme Chen e David Schaub, que, inclusive, ministra um curso interno da “Física dos Super-Heróis”.

Basicamente, ele ensina a toda a equipe os princípios do mundo real a serem aplicados nos filmes. Claro, há elementos fantásticos na trama, afinal, Peter Parker aguenta o tranco de balançar de uma teia a outra sem estourar os braços, por exemplo, mas a maioria das circunstâncias tem que ser real.

O pensamento é válido, pois o grande desafio dos filmes de super-heróis é, de fato, mesclar o mundo fantástico com a realidade e possibilitar a crença na veracidade dos protagonistas. Por conta disso, especialmente o movimento do Homem-Aranha é estudado nos mínimos detalhes e criado para reproduzir um ser humano realizando tais ações, o que é uma vantagem, afinal, todo mundo lembra do aspecto de videogame criado pelo Neo falsificado em “Matrix Reloaded”. Anos-luz separam a falha dos Wachowski da primazia de Homem-Aranha, mas, conforme a tecnologia evolui e o público exige mais, é preciso manter o ritmo e evitar o distanciamento do espectador.

O software Katana, criado pela Sony Pictures Imageworks

O software Katana, criado pela Sony Pictures Imageworks

Spiderman

O resultado é impressionante. Na edição, Marc Webb percebeu que precisava de uma pequena transição com o Homem-Aranha. Em vez de chamar Andrew Garfield, ou seu dublê, para refilmar, a equipe técnica pediu a bola.

Quem entrou em cena foi a versão digital do personagem, que fez os movimentos necessários – utilizando motion capture – e executou a cena, com custo menor e, na prática, o mesmo resultado. Especialmente por conta da roupa do herói, a diferença é imperceptível. É uma situação bem parecida com a obtida em “Homem de Ferro” por conta da roupa. Mas a coisa muda de figura quando rostos “expostos” entram em jogo.

O lado negro surge rapidamente, pois o vilão do filme, Eletro, não tem fantasia e, para ajudar, é composto por inúmeras camadas de eletricidade, cor, vibração e movimento constantes. A Sony criou um software proprietário para trabalhar a eletricidade e transformar qualquer traço feito no programa em, bem, raios elétricos. Veio bem a calhar para manter um personagem tão presente no filme.

Jamie Foxx fez o trabalho habitual de atuação com as marcações para inserção posterior dos efeitos e, visualmente, ficou fantástico. É como se Eletro fosse uma mescla de carne com energia numa troca de energia sem fim. Mas aí veio o alerta vermelho: modelos em CGI.

Spiderman

A maior realização do filme foi a reconstrução de Times Square ao ponto em que é impossível dissociar a versão real da versão em CGI

Com tamanha presença de efeitos, todos os personagens ganharam modelos realistas em CGI, incluindo Gwen Stacy, para facilitar a transição entre tomadas, ou sets, reais e fictícios. Inevitavelmente, aquele pequeno momento que serviu bem ao Homem-Aranha, foi expandido com Eletro e Jamie Foxx, na maior parte das cenas, foi inteiramente substituído por seu modelo CGI. Isso explica a boca um pouco esquisita e algumas reações não-convincentes provocadas pelo personagem.

Para a equipe de produção, essa decisão possibilitou retirar as falhas da maquiagem, garantir a fidelidade dos efeitos e não alterou o resultado final, afinal, os animadores fizeram uma “mímica de absolutamente tudo” que Jamie Foxx fez.

A coisa não é tão simples assim, pois o exagero pode levar ao estranhamento. Se em “Tron Legacy”, o Flynn virtual teve alguns instantes de realismo, o Eletro CGI tem vários momentos de falsidade. No fim das contas, pode causar o mesmo estrago, pois coloca a experiência em risco.

Spiderman

Spiderman

Esse não é um problema definitivo para “O Espetacular Homem-Aranha 2”, mas leva a uma discussão na indústria. Já chegamos ao ponto em que um ator pode ser substituído facilmente. O MoCap fez isso pelo cinema.

Agora, quanto falta para que, de fato, atores deixem de poder mostrar o rosto em filmes de ação e super-heróis por conta da tremenda evolução de seus “modelos em CGI”? Tecnologicamente, não há problema algum. Entretanto isso pode tirar um pouco do charme do cinema, afinal, é através das nuances do ator e suas reações que nos envolvemos, ou não, com um personagem.

Ficaremos, então, à mercê não de bons atores, mas de bons animadores, mesmo nos filmes com “gente real”?

É uma pergunta válida, pois, embora o filme continue sendo feito e os efeitos melhorem a cada dia, tirar aquele sorriso delicado, uma piscadela reveladora ou algo mais mágico que alguns atores conseguem fazer pode, infelizmente, se perder por descuido do replicador… ou melhor, animador.

Spiderman

Recriando mundos

Outro aspecto do trabalho em “O Espetacular Homem-Aranha 2” foi a construção de cenários. E, nesse assunto, não há dúvidas ou críticas. Foi fenomenal. A maior realização desse filme foi a reconstrução de Times Square ao ponto em que é impossível – sem uso de framegrab e zoom – dissociar a versão real da versão em CGI.

A Sony mapeou toda a área, com diversas câmeras portáteis e até telefones celulares, reconstruiu cada prédio, cartaz, letreiro, placa de trânsito e efeito visual, para, então, recriar o que fosse necessário em estúdio. Nenhuma cena foi, de fato, filmada em Manhattan.

Esse é um dos melhores cenários fictícios que já vi, e foi feito pela mesma equipe que realizou “Eu Sou a Lenda”, entretanto, a adaptação de Richard Matheson foi mais “simples”, pois a área estava vazia e apenas iluminada pela luz do Sol.

Dessa vez, o desafio foi recriar Times Square em toda sua glória, de noite e, de quebra, destruir tudo no fim de uma das lutas entre Homem-Aranha e Eletro. Apenas as áreas e extras imediatamente próximas à cena foram recriadas em estúdio, cercado por gigantescos painéis de tela verde, todo o resto foi adicionado posteriormente.

Se o objetivo era ser realista, nesse aspecto, “O Espetacular Homem-Aranha 2 – A Ameaça de Eletro” promete um espetáculo à parte.

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Fábio M. Barreto é jornalista baseado em Los Angeles, autor de “Filhos do Fim do Mundo” e tem um canal de entretenimento no YouTube, o Barreto Unlimited

fd b feedPost originalmente publicado no Brainstorm #9
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